• Andersonn Prestes

O quarto e a estante de livros


Meu quarto está bonito. Pintado. Tem uma parede azul e as outras brancas. Não sei se brancas ou beges – talvez alguma coisa pelo meio. Uma estante com velhos livros. Alguns muito bons, outros nem tanto. Tenho lido poucos livros ultimamente. Tenho lido só artigos e escutado muita música. Mas poderia escutar mais e ler mais.

Eu comprei umas ficções literárias. Comecei a ler o “Metamorfose” do Kafka. Ele escreve muito bem. Fiquei um pouco impressionado. Na história um jovem – acredito que mais ou menos na minha idade -, que trabalha com viagens, relativamente bem-sucedido, transforma-se em um besouro. Coisa maluca. É interessante como o autor consegue desenvolver a escrita em uma história e drama que se passa quase que por completo em um quarto. Acho que deveria ser bonito o quarto também. Ele descreve que há um armário e escrivaninha.

Outro livro que comprei foi o “Mulheres” do Bukowski, mas tenho certeza que não vou entender. Deve ser muito complicado, daquele tipo que visualiza e não responde (haha). Mas a gente gosta do livro de qualquer maneira, acaba que nos faz bem.

Na estante também tem um livro de fotografias do Rio Grande do Sul. Muito bonito. Foi um presente de quando morei em Camaquã por uns meses, momento especial da minha vida. Gosto das fotos mais frias, do campo, o cavalo, a cerração. Gosto do inverno. Nessa prateleira ainda tem o livro vermelho das espécies ameaçadas de extinção no Rio Grande do Sul. Eu fui sorteado. Nunca ganho nem no par ou ímpar. Mas ganhei esse livro em um tipo de conferência. É grande, centenas de página – o que é triste. Os insetos, grupo que estudo, são pouco representados, não porque não são ameaçadas, mas sim pouco estudados. A verdade é que principalmente a destruição de habitats não poupa ninguém, nem mesmo os besouros. Apenas os que eventualmente se transformam em “pestes”. Mas vou mudar de livro agora. Esse assunto não é muito legal.

Logo ali tem um sobre árvores brasileiras. Sou biólogo, então já poderia esperar esse tipo de livro. Eu ganhei do meu “chefe” anos atrás, ele sabia que eu era fraco em botânica (ou sou). Eu tenho bons olhos para diferenciar insetos, mas tenho dificuldade com plantas. São todas grandes e verdes. E precisa da flor e do fruto. Enfim. Seguindo ali ainda vai haver alguns do Darwin, do Gould, Wilson, sobre ética das espécies, a história da vida na Terra . . . O Darwin foi realmente um grande pensador. Mas a escrita dele é meio cansativa. Sabia que ele escreveu até sobre barba?

Saindo da ciência, vem um pouco de poesia, que leio de vez em quando. Gosto muito do Fernando Pessoa, apesar de me afetar de vez em quando. Prefiro ler o Alberto Caeiro, o pseudônimo mais da paz. Lendo, eu me imagino tranquilo, pensando no nada e esquecendo de tudo. Eu recomendo a leitura para quem está com a cabeça cheia, quando parece que tudo está na frente e a gente não consegue alcançar. Cheio de perguntas e poucas respostas. Alberto nos convida a parar e contemplar. Do tipo: foda-se. Olha só esse poema famoso (indicado de vez em quando, ainda mais nesses tempos obscuros aqui no Brasil):

“Há metafísica bastante em não pensar em nada. O que penso eu do mundo? Sei lá o que penso do mundo! Se eu adoecesse pensaria nisso. Que idéia tenho eu das cousas? Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos? Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma E sobre a criação do Mundo? Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos E não pensar. É correr as cortinas Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

(…)”

Eu não me considero um leitor de poesia, mas tenho também Mario Quintana e Drummond. Não gostei muito do Mario Quintana, pelo menos a coleção que tenho. Mas é só uma opinião pessoal e de alguém que não entende. Acho que se o cara tem um dos lugares mais legais do centro de Porto Alegre com o nome dele deve ser porque deixou um legado rico.

Correndo um pouco a prateleira tem ainda duas novelas do Moacir Scliar. Comprei logo depois que ele morreu. Gostei e indico. Um é “A mulher que escreveu a bíblia” e o outro é o “Centauro no Jardim”.

Ainda pode achar por ali coisas diferentes como um clássico sobre meditação chamado “Insightful meditation”. O livro fala bem pouco sobre a cosmologia budista e se atem mais na prática. Duas coisas muito interessantes eu guardo para mim desse livro. Uma é que o foco ajuda a nos preencher e que o tédio pode ser falta de foco, havendo a possibilidade de treinar isso. E a outra é a nossa inconstância - que nossas emoções e estados são fluidos. E podemos tentar assistir e deixar ir embora qualquer desconforto. Não somos, nós estamos, e estamos a todo momento sendo (?).

Então acho que a prateleira vai ficando por aqui, enquanto ouço um bom folk – eu estou no infinite indie folk playlist do spotify, são 3 horas de folk sem repetir, cheio de coisa nova – e leria um bom livro se não fosse tão tarde.

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