• Andersonn Prestes

Em busca da música perfeita e o dum, dum, pã


(Diferente de meus textos em forma de crônica, este é um pequeno conto)

Neymar era tranquilo. Não tão agitado, nem tão parado. Ambicioso, desde pequeno se dava bem com os computadores. O ano era 2036. Ele tinha uma missão: fazer a música perfeita. Nesses tempos onde tudo são algoritmos e os robôs uma realidade, Neymar era uma jovem estrela na empresa Musigle. Os monopólios de grandes empresas globais estavam sofrendo ofensivas, de caráter moral e econômico. Provavelmente alguma coisa nova poderia vir a acontecer (se já não estava acontecendo) e especialistas discutiam isso em colunas de jornais e em noticiários por todos os cantos. Musigle queria agregar valor à missão da empresa. Neymar, com pouco mais de 20 anos, era visto por seus encarregados com uma aptidão natural em gerar códigos e eleger padrões. Jogando sempre avançado, Neymar tinha alto QI e poder de síntese, apesar de nem sempre se interessar tanto por música e outras coisas mundanas.

A pesquisa começara. Neymar juntou tudo o que foi produzido e gravado. Comparou sequências de notas, o ímpeto emocional de cada estrofe, refrão. Qual o melhor tamanho? Tempo? A melhor estrutura? Como seria a música perfeita?

Passava noites em claro. Café e Coca-Cola. Bolacha de água e sal e salgadinho Doritos. Produtos milenares e incrustados na cultura humana. Neymar ficava em dúvida. O computador dizia música lenta. Será? Mais uns ajustes no código. Adicionara muito Bach e os clássicos. Um pouquinho de Sex Pistols, música folk Africana. Está quase tudo pronto.

Faltavam poucos dias para entrega e estavam todos ansiosos. Os executivos pensavam: o que será que nossa promessa transferida para Europa vai nos trazer? A música de 1 bilhão de dólares?

Neymar só queria fazer um bom trabalho. E parece que fez.

Chegou o dia da apresentação. Auditório cheio, muitos alto-falantes, filmadoras. Todos queriam pelo menos um TOP 10 mundial nas próximas semanas.

A música começou a tocar. Tinha batida marcada, com tambores cintilantes. Não havia certeza se tinha bateria. Violinos e guitarras distorcidas. Vocais em camadas, com efeitos, às vezes repetitivos. Era uma mistura estranha, mas que ainda assim soava agradável. Neymar não sabia muito bem o que escutava, mas havia colocado todos os parâmetros, adicionado os caracteres. Estava confiante. Encontrara a música perfeita.

O diretor, Mark Silva, também não sabia o que escutava. Mas pensou: vamos tentar vender. Agradeceu Neymar e disse que sua obra por intermédio da rede elétrica dos computadores estaria a prova nas próximas semanas. Veremos o resultado, dizia ele. Todos na sala estavam intrigados. Até gostaram da música. Mas se perguntavam: isso vai dar certo?

Começou a divulgação. A música perfeita da Musigle. Desenvolvida pelos mais modernos computadores. Escutem a obra prima! O que há de mais sofisticado e aprazível para seus ouvidos!

Enquanto isso, no interior da Tailândia, Iung Li gravara uma música, sem muita pretensão. Colocou dois graves e um agudo – Dum, Dum, Pã. E cantava com a voz grave: Ãhh, Ãhh, Ãhh, Ãhhhhh. Começou a rodar aqui e ali. Em festas. As pessoas gostavam daquela simplicidade. Contagiava. Trazia emoções guardadas que vinham à tona com o Ãhhhhh mais longo. Era estranho e ao mesmo tempo engraçado. Estava ficando popular.

A música perfeita ia ganhando espaço, mas não tanto. E no decorrer de uma semana o inesperado aconteceu: Dum, Dum, Pã, de Iung Li, alcançou o topo das paradas mundiais. Li ficou famoso. Shows agendados, turnê mundial. Loucura total. Feriado em sua cidade natal. Tocava em tudo que é canto. De festas nos subúrbios até intervalos dos jogos de basquete.

Mark, da Musigle, ficou desapontado. Chamou Li para dar palestras. Falar do processo criativo do Dum, Dum, Pã. Queria saber a receita. O código da música perfeita falhara. Não cruelmente. A música era boa. Mas longe da pretensão de uma música perfeita.

Ao mesmo tempo em que os colunistas discutiam sobre os monopólios, também falavam da música de Iung Li, e da irregularidade e inconstância dos gostos peculiares desencadeados por algum motivo muito difícil de codificar. Vários lembraram do fenômeno “Despacito” a cerca de 20 anos atrás, de quando Neymar ainda era um bebê. Ou o “Vem que eu te pego”, alguns anos antes. O algoritmo da cultura parecia não ter tanta predição analisando o passado.

Neymar ficou na empresa. Ainda era uma estrela. Ninguém soube dar uma explicação precisa e não culparam o garoto pelos maus resultados. Talvez apenas adquiriram mais respeito pela criatividade de cada artista, especialmente Neymar, após a longa pesquisa pelos mais talentosos músicos de todos os tempos. Ele começou a apreciar mais arte e abrir mais a cabeça. O trabalho até fluía melhor.

Concluiu que ninguém sabe do futuro.

E achou melhor assim.


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