• Andersonn Prestes

A fábula capilar



Raspei o cabelo. Na verdade rasparam. Uma máquina, um pente e a mão de obra do meu irmão. No alto dos meus quase trinta e cinco anos (poxa vida) nunca havia raspado o cabelo. Sentei no banquinho, embaixo da garagem. Era um clima ameno para a redução capilar. Estava cego, sem espelho e apenas recebia o feedback honesto da minha cachorrinha Rebeca.

A vida das minhas madeixas tem sido um tanto quanto monótona, admito. Meu cabelo sempre foi muito liso e logo com uns quatorze anos resolvi deixar crescer. Tive cabelo comprido por muitos e muitos anos. Só mudava o tamanho do rabo de cavalo. Depois dos vinte e poucos fechou a barba também. Daí cabelo era mato. Mas é aquilo: depois de um tempo de abundância pode vir a escassez. Do topo à queda.

Aliás, queda literalmente.

Aconteceu com grandes impérios, empresas multinacionais, jogadores de futebol. O que há de certo nesse mundão é que as coisas são passageiras. Num dia se tem em abundância, no outro dia - acabou. E perto dos trinta chegou o meu momento: cortei o cabelo. Ele já estava caindo e meus fios estavam diminuindo na mesma proporção em que minha testa ia aumentando.

A verdade é que gostei do novo corte curto, mas às vezes ainda sinto falta de ter um rabo de cavalo. De me sentir mais artista, músico - sei lá.

E nessa tendência ao minimalismo, com a necessidade do isolamento social, tomei um passo mais radical: raspar o cabelo. Um pente um pouco alto talvez, número quatro. E como já dito, meu irmão, com a destreza dos cabeleireiros de Hollywood, aparou o meu cabelo já disforme.

Gostei também do resultado e devo manter ele raspado por mais um tempo, fazendo manutenção (ou alugando meu irmão).

Fiquei surpreso com a praticidade. Quando acorda, levanta e está pronto. Acho que um tubo de shampoo dura pra sempre. Tive essa sensação. Durante a pandemia pode até faltar papel higiênico, mas o cabelo vai estar sempre limpo e perfumado.


Fico imaginando uma família de cabelos raspados e o shampoo atravessando gerações: - Junior, esse shampoo foi um presente da tua avó Gertrudes para o teu avô Everaldo.

Que coisa bonita.

No final, é legal quando mudamos e o resultado é positivo, ou pelo menos nos sentimos tranquilo com a escolha. Pode servir também para pensamentos, hábitos, compromissos. O hoje é sempre diferente do ontem.

E tu? Já raspou o cabelo alguma vez?

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