• Andersonn Prestes

O pé gelado



Estou com os pés gelados. Não havia colocado as meias e confiava no sol tímido que entrava pela janela do meu quarto. Um ledo engano. Agora, devidamente agasalhado, vou esperar até que essa ponta do corpo se aqueça. Enquanto isso, escrevo. Tenho a leve impressão de que terminarei o texto e o pé estará quase quente.

Acredito que a tarefa de esquentar os pés no frio deva acometer todos os cidadãos que passam por um inverno. Sorte têm os baianos, que se esquentam com pimenta sem precisar se esquentar e possuem suas extremidades corporais quentes por grande parte do ano – se não todo.

Tenho a história interessante de um tio que fazia um escalda pés. Uma atitude quase extrema para combater a gélida situação. Todas as armas devem ser usadas no “ardente” conflito. A água era fervida e colocada em um balde. As calças, então, erguidas até o joelho. Sentado em uma cadeira confortável, com o apoio de toda a ciência da podologia, os pés eram mergulhados no água escaldante. Ao final, o alquimista das temperaturas regozijava-se com o efeito, ficava satisfeito com o fim da sensação gelada que se dissipava de uma só vez. Renascia uma nova pessoa, de pés quentes e confortáveis.

A pantufa é um acessório de primeira necessidade para os gaúchos. Acho elas simpáticas, com um design simples e direto. Lembram até as tradicionais alpargatas. A meia e o chinelo havaianas também podem funcionar e seu visual é encarado como moda de alta costura. Extremamente elegante. Mas geralmente não é tão eficaz e acaba apartando alguns casais mais preocupados com a aparência de seu parceiro. Tem o crocs também, mas esse parece ser ainda pior e recomenda-se o uso solitário e confinado, pensando apenas em seu precioso conforto.

Um grande problema é quando chove e aquele sapato novo tem algum furo imperceptível no solado. Ou mesmo a parte de cima deixa passar um pouco de água. Antes da quarentena, na rua, era o dia inteiro de pé gelado. Algo que unia todo povo de uma mesma cidade. Homens e mulheres, feirantes e lojistas, músicos e empresários: pé gelado. Os que tinham botas eram reis na hierarquia do pé. Nem adiantava reclamar.

Mas não reclamo tanto, gosto do inverno, do friozinho, se não for demais. Tomar um cafezinho quente, ler um livro. Não ficar suando, nem com o corpo molengão no calorão. Enfrento o problema do pé com tranquilidade, tomando todas as precauções necessárias.

E se a coisa ficar mesmo feia podemos recorrer ao apoio da ceroula mais a meia de lã.

(e por aqui, o pé agora esquentou).

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