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  • Foto do escritorAndersonn Prestes

As asas musicais

Foto: Caixa da minha coleção particular.


Eu tenho uma pequena coleção de insetos no topo do armário no meu quarto. Fazia algum tempo que não mexia nela e hoje resolvi olhar para ver como os bichinhos estavam. Para o meu contentamento ainda estavam lá, alguns com certas marcas do tempo, mas estavam lá (não tinham sido comidos ou se deteriorado). Renovei a naftalina em bolinhas (para ajudar a conservar) em todas as caixas e fui relembrando alguns bons momentos que eles me proporcionaram.


Foto: Caixa da minha coleção particular.


Eu fui - e talvez ainda seja - um especialista em mariposas (parentes das borboletas, as bruxinhas que vão na luz à noite). Puxei da memória alguns nomes que eram bastante familiares no meu dia a dia como Noctuidae e Sphingidae (nomes de famílias dessas mariposas), ou de espécies como Citheronia brissotii (sempre em Latin e composto).

 

As mariposas são arte. São a criatividade em forma de asas. A diversidade é imensa. São muitas formas, tamanhos e cores. Para entender e diferenciar uma da outra, o padrão de linhas, desenhos e formatos precisa ser analisado. O taxonomista, ou aquele cientista que busca conhecer as espécies, é um Pattern Seeker (descobridor de padrões). Só a diferença entre uma asa e outra não é suficiente. Precisamos tentar entender um grupo de diferenças que vai ser definidora, assim como a variação dentro da espécie, e, enfim, buscar delimitar (ainda que às vezes de forma ambígua) quando começa e termina uma espécie.

 

Essa busca por estruturas e certa leitura de como funciona, me ajuda na música também. Ou mesmo na escrita. A maneira rítmica como componho é por padrões que se juntam em uma nota com a outra. Não faço isso estritamente consciente, mas reconheço de forma intuitiva. A música é formada por padrões, repetições e momentos de surpresa. Um acorde nada mais é que um conjunto de notas: possui uma estrutura delimitada. A espécie (na mariposa) pode ser definida por seu conjunto de linhas, desenhos e formas.


Foto: Caixa da minha coleção particular.

 

Olhando minha coleção hoje pela manhã, viajei em algumas expedições que fiz, que estão ao longo das etiquetas, especialmente aqui no Estado do Rio Grande do Sul. São Francisco de Paula, onde está o Pró-Mata, área de conservação ambiental administrada pela PUCRS, onde fiz minha graduação. Tive a oportunidade de ir várias vezes lá, lugar com uma fauna incrível. Piratini, bem no sul do Estado. Exploramos a área e acampamos em uma entrada da mata perto da estrada. Fomos lá com imagens de satélite do Google Maps, na esperança de encontrar locais interessantes e achar insetos diferentes. Camaquã, ficamos em um hotel após a coleta, apesar de que conhecia uma família muito acolhedora na cidade, onde havia morado três meses em um programa de intercâmbio alguns anos antes.

 

A coleta era à noite, mas começava logo cedo. Durante o dia escolhíamos um local que julgávamos bom para coleta. Então montávamos a “armadilha”. Um pano branco estendido, como num varal, e uma luz negra ou de mercúrio ligada à uma bateria ou motor. No entardecer as mariposas começavam a chegar, algumas gostam de voar mais cedo, outras mais tarde. Ao longo das horas víamos o espetáculo de diferentes tamanhos, formas e cores pousarem no pano. Escolhíamos para levar ao laboratório aquelas que estávamos estudando, cuidando para não levar fêmeas com ovos.


Foto: Local de coleta em Piratini/RS. Pano branco estendido com luz à direita, na margem de um rio.

 

Eu não sei bem como está a situação da fauna de insetos no Estado. Acredito que não há grandes estudos de levantamento e mapeamento. Quando estava ativo havia muitos “buracos negros”. Regiões sem nenhuma informação ou que a fauna foi levantada há mais de 60, 80 anos. Com toda a situação climática que estamos vivendo, penso que muitas das espécies ainda nunca vistas e outras com pequenas populações possam já ter sucumbido. Talvez muitas delas estão tentado sobreviver nos poucos refúgios espalhados pelo Estado (como o Pró-Mata).

 

As coleções são um registro da memória, o que havia em certo lugar em certo momento do tempo. Serve para começarmos a entender sobre um conhecimento mais profundo de uma espécie, nomeando o tripé da biologia: a ecologia, a evolução e a conservação da população desse bichinho. Sem falar que com esse material, podem ser feitos estudos de histologia, além da extração de DNA para uma multitude de estudos.

 

É possível - e muito provável - que nossas matas tenham perdido parte de sua beleza e de suas notas, da arte em forma de asas que enche a noite nunca vista.


Foto: Caixa da minha coleção particular.

 

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