• Andersonn Prestes

Redes sociais e a cultura da vergonha


O colunista David Brooks do New York Times escreveu um artigo interessante sobre os caminhos da moral em nossa cultura conectada. O assunto me desperta interesse porque somos criaturas morais e nossas atitudes definem a maneira como somos e queremos construir o mundo. Vivemos em sociedade e nossos laços afetivos e morais sustentam nossa caminhada. Mas o que é o certo? ou o errado? Em um mundo tão subjetivo, às vezes é um desafio achar uma única resposta com precisão. No entanto, alguns comportamentos parecem universais, como por exemplo, não matar alguém ou torturar, entre outras coisas classificadas horríveis pela nossa cultura. Brooks cita um trabalho de Andy Crouch que aborda a teorização do sistema moral emergido na sociedade conectada atual. O artigo faz uma distinção entre dois tipos de culturas: uma cultura de culpa e uma cultura de vergonha. Na cultura de culpa nossa consciência ditaria a distinção entre o certo e o errado. Por outro lado, em uma cultura de vergonha, a pressão popular definiria os rumos da moral, com a inclusão ou exclusão do indivíduo em julgamento.

Atualmente, defende Brooks, viveríamos em uma cultura de vergonha.

Não é novidade para ninguém que as redes sociais são locais de pleno julgamento. As postagens definem uma imagem, que será absorvida e identificada como suposta afinidade ou oposição. Nossas imposições morais são aprovadas e reprovadas de acordo com a grande massa ou grupos em que fazemos parte, que impulsionariam uma tomada diferente de opinião ou pelo menos a não mais exposição para fugir da reprovação – ou vergonha. Aqui no Brasil, vivemos uma guerra de idéias e de muita polarização. Alguns posicionamentos extremos, e nem tão extremos, estão sendo expostos e julgados. Mas de alguma maneira, ao meu ver, geralmente aparecem de forma efêmera, desenvolvendo-se em um espaço curto e com muita agressividade. O problema moral aparece, alguns tomam a decisão, há uma persuasão de grande parte daquelas pessoas conectadas, inicia-se uma onda de debates e compartilhamentos, que encontram também oposição. No final persiste um senso de ambiguidade e não definição, a espera do próximo grande lance.

Mas a verdade é que estamos em ebulição por aqui e qualquer teorização moral poderia ser complicada. (Falo por mim, que estou inserido no meio de tudo isso e também tenho minhas posições). Mas enfim, em um âmbito geral, a idéia de uma cultura de vergonha defendida pelo autor, mesmo que vivendo em outra cultura, mas também conectada e similar, parece válida para nós aqui nesse caldeirão.

A cultura da vergonha não quer dizer necessariamente algo positivo ou negativo. Haveriam os prós e contras. De um lado, manter uma posição por conta da opinião da maioria, ou por simples aceitação, parece superficial, afinal, se nossa consciência estaria separada de nossa moral (como na cultura de culpa), tudo giraria entorno da aprovação social, que muitas vezes é distorcida e sujeita à mudanças. Mas também em uma cultura de culpa não somos os donos da verdade e precisaríamos de feedback e avaliação de outras opiniões. Mas a vergonha estaria sobrepondo a culpa de acordo com o artigo de Brooks, justamente pela super exposição das redes, onde todos são observados. Brooks ainda fala que em nossa cultura de vergonha, aquele que consegue aprovação popular não necessariamente ganha em honraria ou satisfação, mas na verdade viraria uma celebridade (o oposto de vergonha seria celebridade). Uma celebridade moral, eleita e exposta a todos os cantos pela sociedade conectada. Por fim, em uma cultura de vergonha, a insegurança e ansiedade estariam muito presentes, pois estaríamos a mercê da inclusão ou exclusão entre os grupos, que muda e é maleável.

No texto ele conclui dizendo que para evitar o estado de insegurança e ansiedade apontado, devemos reconhecer um senso de justiça e verdade profundo, um norte para nossas atitudes, assim não ficaríamos eternamente vulneráveis às mudanças de opiniões externas.

Enfim, entre a inclusão e a exclusão, a culpa e a vergonha, diria que o certo e errado continuam sendo um grande desafio, como sempre foram.

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